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Filhos de emigrantes na Suiça

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Filhos de emigrantes na Suiça

Mensagem  TIT@ em Seg Dez 15, 2008 10:09 am

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Filhos de emigrantes na Suiça
Que lugar
para o Português?




O que é a escola de português? As crianças, filhas dos nossos emigrantes na Suíça, falam português? Que motivação para aquelas horas extra de aulas em cada semana?

Sobre estas e outras questões nos falou Alex Milheiros, actualmente professor de português na Suíça. Uma conversa em sua casa, em Genebra, em que nos contou de como se ouve falar português nas ruas de algumas cidades suíças e referiu as dificuldades e a importância do ensino da língua materna a crianças que, no seu dia-a-dia escolar, entre amigos e colegas, falam o francês.

Avante! – Qual a ligação dos filhos dos nossos emigrantes, aqui na Suíça, com a língua portuguesa?

Alex Milheiros:

– A ligação das crianças à língua portuguesa tem a ver com a forma como os pais estão no país de acolhimento.

O emigrante português na Suíça é mais recente do que em França, ou do outro lado do Atlântico. É um emigrante que já saiu de Portugal depois do 25 de Abril. Provavelmente, e em boa percentagem, já veio de regiões urbanas e não directamente das regiões rurais e tem algum nível de estudos.

Por outro lado, a sua forma de estar aqui – a legislação suíça não abre grandes perspectivas de os filhos virem algum dia a serem considerados cidadãos suíços – leva a que a família assuma a criança como uma criança que efectivamente será portuguesa toda a vida.

Um outro factor a ter em conta é a concentração ou dispersão das próprias comunidades portuguesas, pois é evidente que onde a comunidade portuguesa está mais concentrada, a possibilidade de responder de forma razoável, com cursos nas escolas próximas de onde estão as crianças, é melhor do que nos sítios onde a comunidade está bastante dispersa.

Esta concentração das comunidades portuguesas tem reflexos a vários níveis. Aqui em Geneve as famílias portuguesas têm a sorte de terem os seus filhos inscritos em cursos de português que praticamente – salvo raras excepções – são cursos de uma classe só.

Pela Suíça fora, pela França fora, mesmo na própria região de Paris, isso não acontece em muitos sítios. Chega a haver casos em que, numa mesma sala de aula, há crianças do 2º ao 9º ano de escolaridade. Para o professor, gerir estas diferenças é uma dificuldade e fazem-se sentir problemas de rentabilização pedagógica.

– Em termos práticos, como decorre aqui, na Suíça, o ensino de português?

– O ensino que aqui se desenvolve com as crianças não é o ideal. Corresponde a um direito que lhes é outorgado pela Constituição da República, como cidadãos portugueses - o direito ao acesso à língua portuguesa. Por isso os professores são fornecidos por Portugal e pagos por Portugal.

Mas não é apenas um direito – é também uma necessidade. Na nossa opinião, como pedagogos, como professores, o ensino da língua materna corresponde a uma necessidade das crianças para a construção da sua identidade e da sua personalidade.

Mesmo que venham a ser cidadãos suíços (o que não é fácil, dada a legislação), ou cidadãos de outros países, se assumirem completamente a sua identidade enquanto portugueses, e tiverem a ligação a Portugal construída de forma razoável, serão muito melhores cidadãos franceses ou cidadãos suíços.

O ensino não é o ideal, por outro lado, porque não corresponde muitas vezes àquilo que a criança, e depois o jovem, entende que lhe é útil. Estamos num mundo em que cada vez mais o tempo de cada um de nós tende a ser ocupado por coisas que consideramos úteis. As crianças continuam a brincar, como no nosso tempo, mas as famílias cada vez mais pretendem que se dediquem a actividades que, se calhar, lhes vão dar alguma hipótese de no futuro virem a ser artistas, por exemplo.

Brinca, aprendendo música. Brinca, fazendo ginástica. Brinca, aprendendo uma língua estrangeira. E muitas vezes não brinca simplesmente.

– É uma deturpação do que são os tempos livres...

Sim. Esta deturpação da ocupação dos tempos livres tem o seu lado positivo e o seu lado negativo.

Os nossos filhos são muitas vezes assoberbados de actividades que se tornam maçadoras, pois não correspondem ao que seria o seu desejo imediato. E naturalmente perguntam-se – para que é que isto me serve?

Concretamente questionam, por exemplo - Porque é que eu preciso de português? Eu já sei português! Eu já falo português com os meus pais, não preciso ir aprender português.

Claro que não é bem assim. Há o que se sabe naturalmente e há, depois, a estruturação da língua.

Algumas das motivações das crianças são assim diminuídas. Nos nossos cursos de português encontramos tanto crianças muito motivadas, como crianças normalmente motivadas e crianças totalmente desmotivadas.

– Quais os problemas mais sensíveis nos cursos de português?

– O caracter de obrigatoriedade de ida aos cursos de português nem sempre é muito assumido. Os pais e os professores têm aí responsabilidades. Um pai não pode pôr a criança num curso de português, dizendo-lhe apenas – tu vais ao curso de português porque tens de aprender português. Tem também a sua quota parte de influência na motivação da criança e na sua apetência em participar.

Nós, professores, sentimos por vezes dificuldade em gerir grupos numerosos, em salas que não são aquelas que gostaríamos de ter. A maioria das vezes o curso não é nas salas destinadas a actividade lectiva – mas em salas de trabalhos manuais, em salas de pintura, salas de música.

Os grupos de crianças são relativamente numerosos. E são mais numerosos exactamente naqueles níveis etários onde, na minha opinião, o deveriam ser menos, ou seja, nos primeiros anos de escolaridade. É nessa altura – 7, 8, 9 anos – que a criança adquire bons hábitos de trabalho ou, pelo contrário, alguns hábitos de indisciplina.

– A que se deve essa falta de condições de trabalho?

– Portugal faz um esforço para que o ensino de português no estrangeiro e aqui na Suíça possa abarcar todos os que o desejem. Mas, na minha opinião, não faz o esforço correspondente à importância desta matéria.

É preciso disponibilizar bastante mais dinheiro e não o contabilizar como uma despesa mas sim como um investimento.

É de facto de um investimento que se trata. No futuro da língua portuguesa. Não em termos de nação-Portugal, mas em termos de língua-Portugal.

O ensino de língua portuguesa no estrangeiro é uma questão de caracter nacional.

– E em termos de motivação das crianças? Certamente que aquele extra de horas passadas na escola não ajuda muito...

– Seria óptimo que a escolaridade em português pudesse integrar-se no horário da escolaridade normal da criança. Mas isso também tem as suas dificuldades.

Nalguns cursos já há integração em termos de horário. Facilita uma menor sobrecarga no horário das crianças. Mas, por vezes, também dificulta o próprio esquema de funcionamento das escolas. Depende sempre de boas vontades e de opções que a escola faz sobre o que é importante e o que não é importante.

Nós, como professores de português, pensamos naturalmente que estas aulas são muito importantes. Outras pessoas de outras áreas pensarão que é tempo perdido...

Considerar na mesma zona de interesses a aprendizagem do português, a doutrina, a ida ao judo ou a lição de música, é efectivamente o que se passa em norma - são opções que as famílias fazem no mesmo pé de igualdade. Para nós, professores de português, devia ser uma opção prioritária.

Mas, mesmo nestas condições, as crianças que acabam por fazer a sua escolaridade em termos de complemento e que a levam a bom termo, para além de serem um pouco heróis, em geral sentem-se mais tarde gratificadas. E tenho experiências de contactos com ex-alunos meus em França, que mo comprovam, que sentem que valeu a pena.
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